quinta-feira, 13 de junho de 2013

Cheirar, tremer, gozar a vida na forma de amor dos rebeldes, nas diversas formas de amor, que nos dilaceram quando longe, que nos arrancam grandes pedaços quando distantes. Ver a
cidade e cada canto escuro a pulsar frustração em não poder sentir junto com você o cheiro da chuva que nos lava e agora, contemplar a lua pálida por minha saudade. Ao seu lado emudecer e gritar tudo com meu olhar que você já decifra tão bem. Sabe do meu romantismo sem palavras e do teu 'eu te amo' que, por vezes, não respondo. A luz da manhã surge, resplandecente, a trazer meu sorriso mais iluminado depois de despenteados acordarmos e dormirmos para o mundo. Nascemos enfim, depois de tanta morte diária, nascemos enfim do compartilhar de nossas almas, nascemos de bruços, como o nascituro que se forma, no ventre, mergulhado no líquido da vida, quieto. O parto se dá toda vez que nos amamos. O parto se dá. Nos partimos e já tens a parte de mim que eu mais gosto. O parto acontece, mas dessa vez ao invés do choro ao nascer, o que se decifra são sorrisos bobos de crianças que amam, sem saber muito bem o que seja isso, inconsequentemente. Nascemos enfim do ninho do amor e ao longe

voamos no infinito do nosso olhar, cruzado nos ares
da liberdade.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Na garrafa do destilado, transparente a oportunidade de fazer com que o mundo não te sufoque apertando seu pescoço e te impedindo de respirar, numa morte agonizante, como é a de morrer a cada dia de existência. E é queimando que desce a sensação de liberdade, enfim.
Do porre, o coração batendo nas misérias. Revoltas compartilhadas. Entrega total aos instintos e o vômito quer expulsar a verdade que corrói.
Da ressaca, a sensação de que nada mudou. A cabeça girando na roda do mundo.
Você dorme na esperança de que a dor passe, pois ter os olhos abertos é enxergar também o sofrimento, por vezes, intrínseco, da existência. Acorda, meio a contragosto, o hálito cetônico na boca seca, a tontura que faz da sua cabeça o alicerce de uma casa, que mal feito, não consegue estruturá-la. Acorda e acordam-se também as lembranças confusas da noite anterior , as garrafas, os cigarros, as pessoas. Os motivos de tudo isto retornam sarcásticos rindo de você. Ninguém te ensinou que dormir não anula os fatos? Tenta abrir os olhos devagar, o amor ainda pode te salvar, menina, mas as mãos que te agarram o pescoço não são macias como as dele, não te acariciam e enfim, te apertam primeiro, sufocando-te: chamam-na realidade.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Indo para o trabalho de manhã, vejo o pássaro se equilibrar, sem dificuldade, no fio que se mantem esticado por dois postes.
Na calçada, as crianças brincam de atravessar a corda suspensa e entrelaçada em duas árvores. Elas abrem os braços na intenção de um maior equilíbrio. Algumas, mais habilidosas, conseguem abaixar e fazer manobras. Ah, o slackline!
Na praça, a noite, uma trupe se apresenta. Pintados, animam a todos enquanto se equilibram: na perna-de-pau, no monociclo; com bolinhas no ar. Agora tudo ao mesmo tempo.
Saindo do bar da esquina, um bêbado não mais se equilibra, tateando as paredes.
Casais tentam equilibrar os motivos da última briga com rapidez, para poderem se amar um pouco mais antes de dormir.
Navios se equilibram no mar. Os carros, no asfalto. O avião, no ar.
O mundo segue se equilibrando e eu, aflita, sigo tentando em vão equilibrar minha mente para assim poder reparar mais no mundo: ela, teimosa, insiste em só se manter pendida para um lado: o seu.
E é vendo o mundo se equilibrar, e te amando cada vez mais que me desequilibro e caio, enfim, aos seus pés.

domingo, 31 de março de 2013

A fumaça que sai dos veículos se mistura com a do meu cigarro e, juntas, dissolvem-se ao vento no peso da esperança de serem levadas até você. Querem levar até você o meu cheiro, enquanto fumo maços e maços desgostosos na sua espera, já sem noção do tempo.
Saio por ruas desconhecidas e desço avenidas que não sei o nome querendo que a sorte - até então, uma desconhecida que partiu - me faça te encontrar.
Te encontrar é dar de cara com o meu amor transformado em sabe-se lá o que: cheira agora a raiva, frustração, saudades e tantos outros mistos de sentimentos que já não sei os diferenciar e, ainda assim, imploro seu olhar.
Eu quero te olhar e rasgar todos os nossos poemas, esquecer nossas músicas, seu gosto, seu rosto olhar por uma última vez como quem encara o precipício antes de pular e indaga, confuso, o motivo de tudo isto e enquanto viajo, pela última vez no infinito do seu olhar, perceber que meus olhos não mentem e ao invés de te remeter às minhas angústias todas desses dias desleais, só reconhecer o amor genuíno: nos teus olhos um sorriso, no meu o amor que antes, transformado em raiva, agora se assemelha a alegria não mais disfarçada.
A fumaça dos veículos se mistura com a do meu cigarro na esperança de que o vento as leve até você o meu cheiro, mas meu pensamento, dissolvendo-se primeiro, já te encontrou.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

da sala de espera

Sentia-se numa eterna sala de espera, sem saber ao certo o que poderia ela estar esperando assim, tão incansavelmente quanto esperava-a num canto empoeirado a sua vontade de ser. E enquanto contava as horas que a separavam da chegada do momento, se via refletida, distorcida como sua alma, numa xícara já fria de café amargo. Distorcidas as paredes e o chão não mais plano, viu-se tomada por uma dor causada por cada membro que insistia em não querer mais existir, como se amputados fossem. Os dedos da mão esquerda afrouxam-se fazendo com que a xícara esparrame-se pelo chão, como ela até então estava, a xícara agora também quebrara-se, assemelhando-se à ela, pedaço por pedaço cortante. O relógio, já fraco, percebera só agora, insiste em não fazer seus ponteiros moverem-se e pesa no prego enferrujado que o segura inutilmente. Os dedos da mão direita continuam a manter a brasa do cigarro por entre eles, que assim como sua vida, queima sem ser notada e grita para que a traguem e soltem sua fumaça aos quatro ventos, mas ela continua ali, onde o tempo já não pode ser contado pelo relógio: a assemelhar-se cada vez mais com cada móvel, numa eterna sala de espera.

(Morria pela segunda vez no dia, nesse instante.)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

memorial

Na parede do meu quarto, colo desenhos que eu pintava por volta dos onze anos de idade para não deixar-me esquecer de quem já fui.
No guarda-roupa, num canto embaixo de todas as roupas, deixo as blusinhas que aprendi a costurar no overloque por volta dos meus doze anos, nunca mais voltaria a tecer algo, além de alguns textos de versos pobres que dizem-me soar tristes mesmo quando já não me dou conta do que possa ou não significar a melancolia.
O Piazzolla insiste em me machucar com Soledad, várias vezes ao dia.
A janela do meu quarto está aberta a fim de ouvir o som da chuva, mas o vento não entra.
Volto para a parede, preciso agora colar os folhetos dos protestos pacíficos que já participei, que é pra contrastar com essa anestesia que trago agora, a arrastar juntamente com a minha sombra por todos os lugares por onde passo.
Perto da janela, há algumas dezenas de medalhas, estas me chamam mais a atenção. Intocáveis durante anos, trazem consigo um misto de vitória e derrota. Brilho e abandono. Pó. Riscos. Assemelham-se tanto à mim, que pego-me enfeitiçada e alerta: não quero mais ser apenas uma memória. Página incompleta.
E na parede branca, aos poucos preenchida com desenhos, folhetos, fotos, textos e notas musicais, me vi, no canto inferior, a tapar a parte mal pintada, como uma memória, mas ao contrário dos desenhos, medalhas, blusinhas costuradas e textos, não houve quem me recordasse.


(Era carnaval e o incenso de fragrância desconhecida acabara-se. As cinzas dele, não.)


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

às cegas

sou uma fruta estranha, talvez aquela que recolhida antes do tempo, ainda verde, foi deixada na fruteira até amadurecer completamente e, por fim, acabou esquecida. Só será lembrada quando começar a cheirar mal. Talvez alguns frutos tenham sido feitos para nunca serem provados, se assemelham aqueles que amadurecidos demais caem da árvore-mãe e são recolhidos por uma vassoura, ou pelo tempo, ou pelos bichos, ou pela decomposição, pelo solo. Mas eu sou a fruta estranha da árvore que nunca vi, que não senti o cheiro, que não suguei e que acabou na espera da fruteira. E como pode-se saber o gosto do fruto sem mordê-lo e sem devorá-lo? Encrave seus dentes em mim enquanto amadureço, serena, na última repartição da fruteira, vendo as outras frutas irem desaparecendo, pouco a pouco, amadurecidas e embelezadas pelos agrotóxicos. Nada é verdadeiro. O que é ser verdadeiro afinal? Me prove. Me devore, não com os olhos, mas com o saciar da primeira mordida às cegas. Apalpe-me a fim de tentar descobrir com qual forma me assemelho e se preciso, depois de lambuzados, lamba os dedos para verdadeiramente descobrir meu gosto, mas por favor: não me recolha se não for para me engolir, inteira.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

entorpecida

Como um gato, cego, que não reconhece a casa o suficiente para conseguir andar por ela sem tropeçar nos móveis, sem dar de cara com a parede: tudo não passa do escuro. Escuro que bloqueia sua mente, envolvida tão profundamente no silêncio da incerteza que não pode ser interrompida inteiramente pelo barulho dos carros nas ruas que insistem em deixar uma música alta, que deve dizer qualquer coisa que os excite. Há o barulho das motos, buzinas e uma mãe que, sem razão, grita com o filho. Do outro lado da rua há as luzes de natal, que fecho um pouco os olhos na tentativa de vê-las melhor por entre os pequenos vãos do portão enferrujado da garagem: aqui as luzes não têm vez! A água quente do chuveiro que deveria me lavar não é suficiente. Tudo escorre. Tudo escorre pelo meu corpo e as lágrimas salgadas que escorrem pelo meu rosto agora misturam-se com a água quente do banho. Tudo escorre pelo ralo do banheiro, mas nem mil banhos conseguiriam lavar a minha tristeza. E, por mais que esta possa parecer angustiante aos olhos de quem a vê, a tristeza não é necessariamente algo ruim. Ela vem agora acompanhada de uma anestesia de sentidos: nada sinto. Continuo, ainda assim, a idealizar amores, paixões, excitação e por fim, gozo. Tudo escorre, mas eu nada sinto. As lágrimas, enfim, secam sozinhas, eu não tinha motivos quando estas insistiam em cair. Agora estou entorpecida e anestesiada e só escorro dormência. E pelo ralo do banheiro me vi escorrendo também: líquida, anestesiada e entorpecida, numa mistura de lágrimas e água quente do chuveiro, despida, escorri inteiramente, sem forma. Acordo. Não consigo esconder um sorriso contido de quem percebe a peça que lhe foi pregada: minha mente brincou comigo mais uma vez!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dance com a sua sombra

Há a diversidade e esta incute também a diferenciação de valores, ideais certos e errados, não tão distintos assim e o extremo de cada um deles.
A confiança vem apenas à luz do dia e de barreiras que te separam do seu verdadeiro ser, alguém que talvez nem você conheça, pois à noite, tudo o que te resta são os pensamentos e os sentires incontáveis vezes disfarçados durante o dia.
A distância não impede os pensamentos, mas vem armada contra a parte dos sentires que não se refere a isso, pois também faz-se necessário o toque, no qual há muita coisa envolvida que talvez, ironicamente, faz-nos chegar a um outro sentir que se difere daquele que só mora nas emoções que nós mesmos criamos no universo da mente.
Cada mente é um universo único e vezes, isolado. O consciente e subconsciente é apenas seu. O cérebro exercitando o racional e o emocional, a dor, a sensação de solidão, a vontade de esperança para você e para estas pessoas que assim como você só se conhecem ou chegam perto disso no escuro e no toque.
Porque eu só sou capaz de me conhecer com o estímulo de emoções, as quais eu devo apenas à você.
E agora o espelho não significa absolutamente nada quando só é capaz de te mostrar o reflexo, este além de não ter nem toque, nem sentires, ainda vai te projetar o que você tanto sonhou, fazê-lo passar ali, na sua cara, do lado inverso e assim como o céu, você jamais poderá tocá-lo. Ver e observar é tudo o que lhe resta enquanto, certamente, criará sentires sobre isso.
Você vai chorar de solidão aí e eu vou chorar de solidão aqui e no final, mesmo com a nossa presença nos sentiremos sós: os universos de cada pensamento jamais se cruzam inteiramente. Esse grande buraco branco iluminado pelo sol que te faz enxergar, também te cega.
Cegue-se e olhe para o lado, há mais órbitas girando e a existência é o peso que todas elas vão carregar, para sempre.
Baby, eu não consigo mais negar os sentimentos e minhas palavras forçadas vêm negando o que meus olhos não conseguem esconder: eu te amo.
Esse lance de amor-livre simplesmente não faz sentido se você está comigo.
Eu ouço a nossa música, ela voltou a tocar insistentemente, como um disco riscado, eu ainda vejo nosso amor espelhado em cada lágrima que chorei da última vez que te neguei.
A razão não me importa quando você me ama. A razão só quer que nos tornemos máquinas e quando o vento me toca, ah! eu não preciso entendê-lo, ele é o mesmo que te toca e isso me basta.
Idealizar um amor só o faz ainda mais distante. Você não é a perfeição, logo eu posso te alcançar. Sou humana como você e o fato de também não prestar só nos faz ainda mais nossos.
Você pode continuar fingindo, afinal, todos estão fingindo e negando o que no escuro fica inevitável: a nossa sempre vontade de se entregar e de morrer de amor. Eu morro. E revivo. Porque quando estou contigo sou toda essa vontade de viver sem saber bem o que é isso.Com você eu sou o amor. Por ele tenho morrido todos os dias e isso é o que me faz viver. Que morramos juntos e dessa vez, as luzes estarão acesas.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Os sorrisos das fotografias nos porta-retratos na sala têm me cansado, enferrujados e petrificados demais para trazerem consigo qualquer brilho no olhar senão o do flash da câmera. Porque não é tão fácil saber se as curvas do sorriso é mero mecanismo enquanto a moldura e cenário da foto são, por vezes, tão bonitos. A flor vermelha, de plástico, mergulhada na água, como enfeite apenas, está há cerca de seis anos em cima da mesinha da sala, flutuando e debochando sua imortalidade, lança-me um sorriso sarcástico, ela não irá morrer. Cada móvel e cada metro das paredes brancas mal pintadas dessa casa parecem saber o quanto meus pensamentos têm se combatido em minha mente, numa até então contradição com meus atos. A televisão, desligada, eu já venci.O relógio na parede do meu quarto e seu TIC-TAC diário martela em minha cabeça incansavelmente. TIC-TAC. A brevidade dos olhares fazem com que uma piscada de olho seja tempo demais a ser perdido. Nada é certo e eu insisto em duvidar das grandes verdades do mundo, visto que estas só me trazem novas duvidas. Quero andar na beira de um precipício, olhar para baixo e no meio do meu delírio gritar para a vida indagando o que ela quer de mim, meu grito ecoará me devolvendo a pergunta, eu sei. Eu realmente não posso esperar uma resposta satisfatória quando nenhuma pode ser capaz de me fazer parar de correr, errar, ter fome e me satisfazer.A vida me traga lentamente se eu não a tragar primeiro, então eu solto sua fumaça aos quatro cantos: me sinto viva, posso sentir, não sou o porta-retrato da velha fotografia ou o enfeite na mesa da sala. Vivo, e porque vivo meu sorriso é verdadeiro.TIC-TAC.Não tenho tempo a perder. Eu vivo.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Passaram-se cinco estações desde o outono em que te vi indo embora e desde então passo as estações tentando, frustradamente, encontrar alguém que me faça despertar a pessoa que eu era quando estava ao seu lado.
Passei o inverno fugindo da chuva, enquanto sei que escolheríamos sempre o caminho mais longo ainda que estivesse chovendo.Minha blusa colaria em minha pele, desenhando os meus traços, minhas mãos frias tremeriam e meus dentes se bateriam uns nos outros. Você riria enquanto me abraçava, me apertando com força, e por fim, calaria meu frio num beijo longo.
Sinto que a parte que eu mais gostava de mim adormeceu naquela tarde em que te vi com os olhos vermelhos,o adeus no coração, disparado, a me abraçar pela última vez. Ainda sou capaz de sentir o calor do nosso último beijo, a última canção dedilhada no violão e nossa música tocando no rádio, o dia todo. Se eu soubesse, eu te morderia com força, mais uma vez, e depois, quase arrependida, vendo minhas marcas na sua pele, iria beijá-las tentando amenizar sua dor.
Vou me mudar dessa cidade cujo asfalto mantem impregnado a sujeira de cada palavra que eu não te disse e de todas as nossas promessas vãs, que é pra ver se me esqueço da gente, naquela grama, vendo e rindo dos desenhos nas nuvens.
É difícil não me lembrar quando quase posso ver a marca das suas mordidas ainda em minha pele, sentir o cheiro do seu cigarro em minhas roupas e seu gosto em mim. Se faço o mesmo caminho que fazíamos todos os dias e se todos os casais que vejo na rua me lembram a gente.
Passaram-se cinco estações e desde então, gosto menos de mim.

sábado, 24 de março de 2012

doce acidez

Você me pediu um poema, mas querida, eu não consigo rimar ou ver qualquer poema que possa ser mais bonito que a sua forma de arder. Conheço a sua acidez, que traz consigo uma vontade e gritos nítidos pedindo para ser doçura. Doçura da qual eu provo todas as noites quando passeamos - quase sempre a passos rápidos, é verdade- de mãos dadas pela faculdade. No caminho entre a nossa sala e o bar há sempre um encaixe tão ritmado entre você e eu que chego vezes a pensar que somos a mesma. Sei que você vai me contar do seu fim de semana agitado e depois das suas angustias, enquanto aperta a minha mão. E depois, ardendo, vai sair correndo e gritando pelos corredores daquela faculdade e voltar agitada procurando me morder para que eu tenha a marca dos seus dentes em minha pele por pelo menos uns dias, e ah! como me lateja tudo isto! Me lateja saber que, de alguma forma, eu preciso da sua loucura para reacender a minha, nas horas em que, teimosa, esta insiste em ser lucidez. Preciso de você e da sua acidez quando não tenta disfarçar a raiva que sentes e que tanto lhe ferve os lábios quando me fala dele, que já foi teu. Ah, como preciso da sua doçura que salta quando cansa-se de se esconder no fundo do copo quase transbordado de acidez. Preciso de você porque você é um misto de acidez, doçura e loucura gritante. É ardência e toda vez que volto para casa cansada e desgostosa, me deito e me lembro de você, eu inevitavelmente me lembro: 'não posso me esquecer de viver' e a partir daí, bem, a partir daí eu vivo, ardo e chego a delirar: viver tem um gosto e tanto!

segunda-feira, 19 de março de 2012

não haverá ninguém para aplaudir

Vendo minha vida passar sob meus olhos espelhada no vidro molhado pela chuva, é inconstância que escorre, é liberdade, amor, pois o canário preso na gaiola do quintal não quer cantar mais. Cansou de assistir tudo pela grade. Pego na tua mão, te acaricio e te dou afeto, mas por céus, não insista para que eu te peça para ser apenas meu se te quero assim, livre, como o vento que me desata os cabelos. Voe por aí e distribua seus beijos entre elas e depois, saciado, deite-se com eles. Não posso e não quero te privar do desejo de outro corpo que não seja o meu e eu te peço, deseje, arda e não seque, por favor, não seque. Eu estarei lá, sentada em algum canto da cidade ou no alto da escadaria vendo a mata ser invadida pelas construções, estarei sedenta de fome e sede, procurando, como você bem sabe, uma vida simples e pés descalços. Não, eu não cogito a ideia de entender a cidade, mas preciso fazer parte dela, observá-la não é o bastante e eu me recuso a ser plateia quando simplesmente posso fazer parte do elenco e interagir com ele. Se você não repara nos grafites dos muros da cidade, na lua ou foge da chuva toda vez que ela insiste em cair, eu estarei chovendo sobre você, tendo em vista que faço isso todos os dias quando cansada, encosto o meu rosto na janela dos ônibus. Eu quero estar no meio do povo, conversar com o mendigo da praça, com a trans da esquina e com o bêbado largado no chão. Não penso em entender a cidade, como te disse, mas as misérias realmente não te gritam nada? Há tanta vida escorrendo lá fora, querido. Escorrendo sob meus olhos e eu me recuso a ser plateia, quando sei, que cedo ou tarde a cortina do teatro vai se fechar, as luzes vão se apagar e vão anunciar, sem piedade alguma, o final da peça.

segunda-feira, 12 de março de 2012

desculpe, Mari(n)a, morena, mas eu tô de mal

Atravessou o país
num ônibus
só você sabe o que é ter pavor de avião
de nuvens
e de tempestades

está chovendo aqui, Maria
trovejando forte
e eu insisto em te procurar
com medo
nos cantos da casa

na cozinha
ainda tem nós duas discutindo religião. tem cheiro de andu e de carinho.
na sala
ainda tem você a tarde toda esparramada no sofá, assistindo novelas e eu, Almodóvar
no quarto
tem Marina Morena, que a Calcanhotto insiste em cantar

você em casa
eu na rua

Maria, se você passa a vida toda assistindo o mundo pela janela da sala
não faz parte dele
apenas observa

me observa chegar às três da madrugada
com cheiro de cigarro
e insiste em não aceitar os meus convites para dar uma volta na quadra

você é igreja, novelas e saias longas
sou loucura, nudez e cigarros,

mas na bagunça do meu quarto ainda tem você
sentada ao meu lado, cantando Marina Morena
eu sempre erro a letra toda
distraída demais olhando você cantar e se remexer na cadeira
no ritmo da música

Maria, está tudo intacto aqui
só meu quarto
que anda mais branco
mais monótono
meu violão que insiste em manter-se ora desafinado, ora mudo
o lencinho branco que você esqueceu
continua em cima da cama que você dormia
fiz questão de não arrumar
o travesseiro ainda tem a marca da sua cabeça

se eu insisto em me referir a você no presente, Maria
se agora meus óculos embaçam de lágrimas
as suas já secaram
você não respira mais
e eu continuo aqui
respirando cada molécula da sua alma
nos cantos da casa.