quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Sentada ao seu lado na van, enquanto o Caetano canta, as nuvens passeiam onde navego e sua presença faz-se tão completa que te sinto dentro de mim, não me dou conta de que és outro ser. Não me dou conta de que tens suas certezas tão imutáveis refletidas no seu olhar gélido, que tantas vezes me congela. Você traz um olhar triste que me conta muitas histórias. Que me traz o perfume e espinhos, mas nunca a rosa. Guardo as cinzas da rosa despetalada pelo tempo no meio daquele livro do Drummond e te falo que até mesmo o excesso de luz cega.Eu me infiltro entre as nuvens e navego no desconhecido azul do céu de pensamentos. Joga sua essência nas minhas entranhas! Meu coração comprime-se ao te ler os gestos. Solta o grito, não posso mais suportar a voz abafada que cala seus sonhos e esperanças! Minha esperança é barco pesado demais, que me conduz ao dilúvio das coisas concretizadas apenas na minha imaginação - essa menina, bruta, que me chicoteia tantas vezes e que me sujeita a seu jogo sujo. Jogo delicado que não posso tocar, nem ver, mas que é tão maior que eu por não ter forma definida. Não tem limitações. 259 km hão de nos separar um dia, por enquanto, são 259 anos-luz que nos distanciam. O sol tocando minha pele traz-me a mensagem de que estou viva e aquece meus sentimentos. Em dias como esse, olho com tanta angústia para o céu que posso sentir as nuvens encobrindo-me em sua imensidão. Toma formas que dissolvem-se no azul dos meus pensamentos. Quando choro, posso sentir: as nuvens navegam até mim, o azul dá lugar ao cinza. Tento voltar à superfície e respirar, mas elas passam por minhas entranhas e já não posso tocá-las. Nuvens passeando por cada pedaço de mim. Vão mudando-se em formas diversas que se chocam com as verdades que até então eu trazia. E é então que chove. A chuva é o sangue que percorre minhas veias em direção ao meu coração. Vai lavá-lo para que este não siga sendo tão seco e oco - por vezes, foi tão oco que eu podia ouvir suas falas a ecoarem pelas paredes do meu corpo, que são minha forma. Sinto que nesses dias em que as nuvens choram, transcendo as formas limitadas do meu corpo, como se permeáveis elas fossem e, assim como as nuvens, tomo outras formas - que se parecem muito com os desenhos, que cada um vê de um jeito a se formar nas nuvens. Em qual forma você vê minha alma? Entendo que ela é como os desenhos nas nuvens: onde eu enxergava animais estranhos, meu amor enxergava um sorvete-nuvem e, em alguns minutos, nenhum dos desenhos encontravam-se no céu. Dissipara-se para tomar outra forma, pois aquela não mais lhe cabia. Aquela forma quer ser livre. A forma é minha alma na forma de nuvens, formas mutáveis e insistentemente livres, que dão agora lugar ao sol.
sábado, 23 de novembro de 2013
Tu beijas minha boca, borra meu batom vermelho e morde meus lábios demoradamente, mas não vê a poesia que trago entre eles e que de noite me engole. Tu deixas seu cheiro no meu travesseiro e quando sais, deixa um pouco do seu perfume a embriagar o quarto. Na cama em que deitamos, você vem e volta. Meus pensamentos ficam, você não. Meu olho direito você beija três vezes seguidas, mas ignora minha visão poética das coisas. Você reclama do vento e eu o vejo a dançar com as folhas das árvores e, cabelo ao vento, danço junto: transo com o vento sempre. Minha tv é céu, sobre a minha cabeça as estrelas e a lua como única luz. A cidade nos atrapalha demais escondendo as estrelas e dando lugar apenas aos aviões. Você se incomoda por eu te olhar demoradamente. Fica sem jeito, pede pra eu desviar meu olhar. Suas pupilas: inquietas. Te explico que preciso dos teus olhos pra ter-te por inteira e peço-te para que não use óculos escuro, meu amor. Te imploro que não uses. Quero olhar para seus olhos e ver-te sendo, assim como me vejo ser. A maioria das pessoas são sem se dar conta disso. Você levemente existe, enquanto eu, vejo minha existência a pesar toneladas de angústia por sobre você. Ela me massacra, mas carrego-a com força para que não te doa como dói até então em mim. Você reclama do meu cigarro, mas não repara na marca de batom vermelho que deixo, distraidamente, na ponta de todos eles. Das minhas brisas entende apenas o riso, e o que mais importa? Rimos então. Liga para me dizer que está ouvindo nossa música, mas não a reconheces quando é da minha boca que a voz penetra o ar e enche o quarto e minha alma de bemóis e sustenidos. Mas você se arrepia. Eu sinto que sentes e isso me basta: que mesmo não entendendo, sinta. Afinal, talvez seja a sua leveza que vai me salvar dessa morte diária da existência, dessa forma líquida que tomo como minha tantas vezes. Vai me salvar das vezes em que escorrego inteira pelo ralo do banheiro. Me salva do entendimento das coisas! Quero apenas sentir! E que a loucura da falta de sentido, essa que move a humanidade, não nos abandone. Felizes os que sentem a loucura acima de qualquer coisa e eu, mesmo sendo repreendida por ti, continuo a te olhar nos olhos. Olhos de jabuticaba. Continuo a mergulhar no infinito do que tua boca cala. A nossa música continua, o inverno em mim não.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Você não sabe o que é tatear no escuro depois de ver as cores sumirem, procurando qualquer objeto divino que possa colocar fim a todos os males decorrentes do cativeiro de sua alma, cujos cadeados enferrujados são a falta de liberdade - tiram-te além da liberdade de vida, a de morte - , vigiam-te vinte e quatro horas por dia a fim de rir sarcasticamente da tortura que é manter-te ainda existente. As luzes: mantém-nas acesas dia e noite para que perca a noção de tempo (este não existe mais) . Você dorme, mas a dor não passa e clama por sonos cada vez maiores.Arrancam de dentro de sua bile sorrisos forçados que saem como vômitos. Há tanto tempo sem ver teu rosto que já não se lembra de quem tu és, mas fazem a tua imagem formulada nos gritos incessantes que vêm do porão escuro das palavras laminadas que te dilaceram. O choro, ao nascimento, anunciava o que viria, mas insistiram ainda assim em te trazer a esse calabouço chamado realidade. Ah, como eu queria voltar ao útero! De bruços me deito na água, imaginando o dia em que a cortina gloriosamente se abaixará e anunciarão então o final do espetáculo. Silêncio. Ninguém aplaudirá.
(e a liberdade estampada nos olhos cinzas do morto)
(e a liberdade estampada nos olhos cinzas do morto)
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Cheirar, tremer, gozar a vida na forma de amor dos rebeldes, nas diversas formas de amor, que nos dilaceram quando longe, que nos arrancam grandes pedaços quando distantes. Ver a
cidade e cada canto escuro a pulsar frustração em não poder sentir junto com você o cheiro da chuva que nos lava e agora, contemplar a lua pálida por minha saudade. Ao seu lado emudecer e gritar tudo com meu olhar que você já decifra tão bem. Sabe do meu romantismo sem palavras e do teu 'eu te amo' que, por vezes, não respondo. A luz da manhã surge, resplandecente, a trazer meu sorriso mais iluminado depois de despenteados acordarmos e dormirmos para o mundo. Nascemos enfim, depois de tanta morte diária, nascemos enfim do compartilhar de nossas almas, nascemos de bruços, como o nascituro que se forma, no ventre, mergulhado no líquido da vida, quieto. O parto se dá toda vez que nos amamos. O parto se dá. Nos partimos e já tens a parte de mim que eu mais gosto. O parto acontece, mas dessa vez ao invés do choro ao nascer, o que se decifra são sorrisos bobos de crianças que amam, sem saber muito bem o que seja isso, inconsequentemente. Nascemos enfim do ninho do amor e ao longe
voamos no infinito do nosso olhar, cruzado nos ares
da liberdade.
cidade e cada canto escuro a pulsar frustração em não poder sentir junto com você o cheiro da chuva que nos lava e agora, contemplar a lua pálida por minha saudade. Ao seu lado emudecer e gritar tudo com meu olhar que você já decifra tão bem. Sabe do meu romantismo sem palavras e do teu 'eu te amo' que, por vezes, não respondo. A luz da manhã surge, resplandecente, a trazer meu sorriso mais iluminado depois de despenteados acordarmos e dormirmos para o mundo. Nascemos enfim, depois de tanta morte diária, nascemos enfim do compartilhar de nossas almas, nascemos de bruços, como o nascituro que se forma, no ventre, mergulhado no líquido da vida, quieto. O parto se dá toda vez que nos amamos. O parto se dá. Nos partimos e já tens a parte de mim que eu mais gosto. O parto acontece, mas dessa vez ao invés do choro ao nascer, o que se decifra são sorrisos bobos de crianças que amam, sem saber muito bem o que seja isso, inconsequentemente. Nascemos enfim do ninho do amor e ao longe
voamos no infinito do nosso olhar, cruzado nos ares
da liberdade.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Na garrafa do destilado, transparente a oportunidade de fazer com que o mundo não te sufoque apertando seu pescoço e te impedindo de respirar, numa morte agonizante, como é a de morrer a cada dia de existência. E é queimando que desce a sensação de liberdade, enfim.
Do porre, o coração batendo nas misérias. Revoltas compartilhadas. Entrega total aos instintos e o vômito quer expulsar a verdade que corrói.
Da ressaca, a sensação de que nada mudou. A cabeça girando na roda do mundo.
Você dorme na esperança de que a dor passe, pois ter os olhos abertos é enxergar também o sofrimento, por vezes, intrínseco, da existência. Acorda, meio a contragosto, o hálito cetônico na boca seca, a tontura que faz da sua cabeça o alicerce de uma casa, que mal feito, não consegue estruturá-la. Acorda e acordam-se também as lembranças confusas da noite anterior , as garrafas, os cigarros, as pessoas. Os motivos de tudo isto retornam sarcásticos rindo de você. Ninguém te ensinou que dormir não anula os fatos? Tenta abrir os olhos devagar, o amor ainda pode te salvar, menina, mas as mãos que te agarram o pescoço não são macias como as dele, não te acariciam e enfim, te apertam primeiro, sufocando-te: chamam-na realidade.
Do porre, o coração batendo nas misérias. Revoltas compartilhadas. Entrega total aos instintos e o vômito quer expulsar a verdade que corrói.
Da ressaca, a sensação de que nada mudou. A cabeça girando na roda do mundo.
Você dorme na esperança de que a dor passe, pois ter os olhos abertos é enxergar também o sofrimento, por vezes, intrínseco, da existência. Acorda, meio a contragosto, o hálito cetônico na boca seca, a tontura que faz da sua cabeça o alicerce de uma casa, que mal feito, não consegue estruturá-la. Acorda e acordam-se também as lembranças confusas da noite anterior , as garrafas, os cigarros, as pessoas. Os motivos de tudo isto retornam sarcásticos rindo de você. Ninguém te ensinou que dormir não anula os fatos? Tenta abrir os olhos devagar, o amor ainda pode te salvar, menina, mas as mãos que te agarram o pescoço não são macias como as dele, não te acariciam e enfim, te apertam primeiro, sufocando-te: chamam-na realidade.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Indo para o trabalho de manhã, vejo o pássaro se equilibrar, sem dificuldade, no fio que se mantem esticado por dois postes.
Na calçada, as crianças brincam de atravessar a corda suspensa e entrelaçada em duas árvores. Elas abrem os braços na intenção de um maior equilíbrio. Algumas, mais habilidosas, conseguem abaixar e fazer manobras. Ah, o slackline!
Na praça, a noite, uma trupe se apresenta. Pintados, animam a todos enquanto se equilibram: na perna-de-pau, no monociclo; com bolinhas no ar. Agora tudo ao mesmo tempo.
Saindo do bar da esquina, um bêbado não mais se equilibra, tateando as paredes.
Casais tentam equilibrar os motivos da última briga com rapidez, para poderem se amar um pouco mais antes de dormir.
Navios se equilibram no mar. Os carros, no asfalto. O avião, no ar.
O mundo segue se equilibrando e eu, aflita, sigo tentando em vão equilibrar minha mente para assim poder reparar mais no mundo: ela, teimosa, insiste em só se manter pendida para um lado: o seu.
E é vendo o mundo se equilibrar, e te amando cada vez mais que me desequilibro e caio, enfim, aos seus pés.
Na calçada, as crianças brincam de atravessar a corda suspensa e entrelaçada em duas árvores. Elas abrem os braços na intenção de um maior equilíbrio. Algumas, mais habilidosas, conseguem abaixar e fazer manobras. Ah, o slackline!
Na praça, a noite, uma trupe se apresenta. Pintados, animam a todos enquanto se equilibram: na perna-de-pau, no monociclo; com bolinhas no ar. Agora tudo ao mesmo tempo.
Saindo do bar da esquina, um bêbado não mais se equilibra, tateando as paredes.
Casais tentam equilibrar os motivos da última briga com rapidez, para poderem se amar um pouco mais antes de dormir.
Navios se equilibram no mar. Os carros, no asfalto. O avião, no ar.
O mundo segue se equilibrando e eu, aflita, sigo tentando em vão equilibrar minha mente para assim poder reparar mais no mundo: ela, teimosa, insiste em só se manter pendida para um lado: o seu.
E é vendo o mundo se equilibrar, e te amando cada vez mais que me desequilibro e caio, enfim, aos seus pés.
domingo, 31 de março de 2013
A fumaça que sai dos veículos se mistura com a do meu cigarro e, juntas, dissolvem-se ao vento no peso da esperança de serem levadas até você. Querem levar até você o meu cheiro, enquanto fumo maços e maços desgostosos na sua espera, já sem noção do tempo.
Saio por ruas desconhecidas e desço avenidas que não sei o nome querendo que a sorte - até então, uma desconhecida que partiu - me faça te encontrar.
Te encontrar é dar de cara com o meu amor transformado em sabe-se lá o que: cheira agora a raiva, frustração, saudades e tantos outros mistos de sentimentos que já não sei os diferenciar e, ainda assim, imploro seu olhar.
Eu quero te olhar e rasgar todos os nossos poemas, esquecer nossas músicas, seu gosto, seu rosto olhar por uma última vez como quem encara o precipício antes de pular e indaga, confuso, o motivo de tudo isto e enquanto viajo, pela última vez no infinito do seu olhar, perceber que meus olhos não mentem e ao invés de te remeter às minhas angústias todas desses dias desleais, só reconhecer o amor genuíno: nos teus olhos um sorriso, no meu o amor que antes, transformado em raiva, agora se assemelha a alegria não mais disfarçada.
A fumaça dos veículos se mistura com a do meu cigarro na esperança de que o vento as leve até você o meu cheiro, mas meu pensamento, dissolvendo-se primeiro, já te encontrou.
Saio por ruas desconhecidas e desço avenidas que não sei o nome querendo que a sorte - até então, uma desconhecida que partiu - me faça te encontrar.
Te encontrar é dar de cara com o meu amor transformado em sabe-se lá o que: cheira agora a raiva, frustração, saudades e tantos outros mistos de sentimentos que já não sei os diferenciar e, ainda assim, imploro seu olhar.
Eu quero te olhar e rasgar todos os nossos poemas, esquecer nossas músicas, seu gosto, seu rosto olhar por uma última vez como quem encara o precipício antes de pular e indaga, confuso, o motivo de tudo isto e enquanto viajo, pela última vez no infinito do seu olhar, perceber que meus olhos não mentem e ao invés de te remeter às minhas angústias todas desses dias desleais, só reconhecer o amor genuíno: nos teus olhos um sorriso, no meu o amor que antes, transformado em raiva, agora se assemelha a alegria não mais disfarçada.
A fumaça dos veículos se mistura com a do meu cigarro na esperança de que o vento as leve até você o meu cheiro, mas meu pensamento, dissolvendo-se primeiro, já te encontrou.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
da sala de espera
Sentia-se numa eterna sala de espera, sem saber ao certo o que poderia ela estar esperando assim, tão incansavelmente quanto esperava-a num canto empoeirado a sua vontade de ser. E enquanto contava as horas que a separavam da chegada do momento, se via refletida, distorcida como sua alma, numa xícara já fria de café amargo. Distorcidas as paredes e o chão não mais plano, viu-se tomada por uma dor causada por cada membro que insistia em não querer mais existir, como se amputados fossem. Os dedos da mão esquerda afrouxam-se fazendo com que a xícara esparrame-se pelo chão, como ela até então estava, a xícara agora também quebrara-se, assemelhando-se à ela, pedaço por pedaço cortante. O relógio, já fraco, percebera só agora, insiste em não fazer seus ponteiros moverem-se e pesa no prego enferrujado que o segura inutilmente. Os dedos da mão direita continuam a manter a brasa do cigarro por entre eles, que assim como sua vida, queima sem ser notada e grita para que a traguem e soltem sua fumaça aos quatro ventos, mas ela continua ali, onde o tempo já não pode ser contado pelo relógio: a assemelhar-se cada vez mais com cada móvel, numa eterna sala de espera.
(Morria pela segunda vez no dia, nesse instante.)
(Morria pela segunda vez no dia, nesse instante.)
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
memorial
Na parede do meu quarto, colo desenhos que eu pintava por volta dos onze anos de idade para não deixar-me esquecer de quem já fui.
No guarda-roupa, num canto embaixo de todas as roupas, deixo as blusinhas que aprendi a costurar no overloque por volta dos meus doze anos, nunca mais voltaria a tecer algo, além de alguns textos de versos pobres que dizem-me soar tristes mesmo quando já não me dou conta do que possa ou não significar a melancolia.
O Piazzolla insiste em me machucar com Soledad, várias vezes ao dia.
A janela do meu quarto está aberta a fim de ouvir o som da chuva, mas o vento não entra.
Volto para a parede, preciso agora colar os folhetos dos protestos pacíficos que já participei, que é pra contrastar com essa anestesia que trago agora, a arrastar juntamente com a minha sombra por todos os lugares por onde passo.
Perto da janela, há algumas dezenas de medalhas, estas me chamam mais a atenção. Intocáveis durante anos, trazem consigo um misto de vitória e derrota. Brilho e abandono. Pó. Riscos. Assemelham-se tanto à mim, que pego-me enfeitiçada e alerta: não quero mais ser apenas uma memória. Página incompleta.
E na parede branca, aos poucos preenchida com desenhos, folhetos, fotos, textos e notas musicais, me vi, no canto inferior, a tapar a parte mal pintada, como uma memória, mas ao contrário dos desenhos, medalhas, blusinhas costuradas e textos, não houve quem me recordasse.
(Era carnaval e o incenso de fragrância desconhecida acabara-se. As cinzas dele, não.)
No guarda-roupa, num canto embaixo de todas as roupas, deixo as blusinhas que aprendi a costurar no overloque por volta dos meus doze anos, nunca mais voltaria a tecer algo, além de alguns textos de versos pobres que dizem-me soar tristes mesmo quando já não me dou conta do que possa ou não significar a melancolia.
O Piazzolla insiste em me machucar com Soledad, várias vezes ao dia.
A janela do meu quarto está aberta a fim de ouvir o som da chuva, mas o vento não entra.
Volto para a parede, preciso agora colar os folhetos dos protestos pacíficos que já participei, que é pra contrastar com essa anestesia que trago agora, a arrastar juntamente com a minha sombra por todos os lugares por onde passo.
Perto da janela, há algumas dezenas de medalhas, estas me chamam mais a atenção. Intocáveis durante anos, trazem consigo um misto de vitória e derrota. Brilho e abandono. Pó. Riscos. Assemelham-se tanto à mim, que pego-me enfeitiçada e alerta: não quero mais ser apenas uma memória. Página incompleta.
E na parede branca, aos poucos preenchida com desenhos, folhetos, fotos, textos e notas musicais, me vi, no canto inferior, a tapar a parte mal pintada, como uma memória, mas ao contrário dos desenhos, medalhas, blusinhas costuradas e textos, não houve quem me recordasse.
(Era carnaval e o incenso de fragrância desconhecida acabara-se. As cinzas dele, não.)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
às cegas
sou uma fruta estranha, talvez aquela que recolhida antes do tempo, ainda verde, foi deixada na fruteira até amadurecer completamente e, por fim, acabou esquecida. Só será lembrada quando começar a cheirar mal.
Talvez alguns frutos tenham sido feitos para nunca serem provados, se assemelham aqueles que amadurecidos demais caem da árvore-mãe e são recolhidos por uma vassoura, ou pelo tempo, ou pelos bichos, ou pela decomposição, pelo solo. Mas eu sou a fruta estranha da árvore que nunca vi, que não senti o cheiro, que não suguei e que acabou na espera da fruteira. E como pode-se saber o gosto do fruto sem mordê-lo e sem devorá-lo? Encrave seus dentes em mim enquanto amadureço, serena, na última repartição da fruteira, vendo as outras frutas irem desaparecendo, pouco a pouco, amadurecidas e embelezadas pelos agrotóxicos. Nada é verdadeiro. O que é ser verdadeiro afinal? Me prove. Me devore, não com os olhos, mas com o saciar da primeira mordida às cegas. Apalpe-me a fim de tentar descobrir com qual forma me assemelho e se preciso, depois de lambuzados, lamba os dedos para verdadeiramente descobrir meu gosto, mas por favor: não me recolha se não for para me engolir, inteira.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
entorpecida
Como um gato, cego, que não reconhece a casa o suficiente para conseguir andar por ela sem tropeçar nos móveis, sem dar de cara com a parede: tudo não passa do escuro.
Escuro que bloqueia sua mente, envolvida tão profundamente no silêncio da incerteza que não pode ser interrompida inteiramente pelo barulho dos carros nas ruas que insistem em deixar uma música alta, que deve dizer qualquer coisa que os excite. Há o barulho das motos, buzinas e uma mãe que, sem razão, grita com o filho.
Do outro lado da rua há as luzes de natal, que fecho um pouco os olhos na tentativa de vê-las melhor por entre os pequenos vãos do portão enferrujado da garagem: aqui as luzes não têm vez!
A água quente do chuveiro que deveria me lavar não é suficiente. Tudo escorre. Tudo escorre pelo meu corpo e as lágrimas salgadas que escorrem pelo meu rosto agora misturam-se com a água quente do banho. Tudo escorre pelo ralo do banheiro, mas nem mil banhos conseguiriam lavar a minha tristeza. E, por mais que esta possa parecer angustiante aos olhos de quem a vê, a tristeza não é necessariamente algo ruim. Ela vem agora acompanhada de uma anestesia de sentidos: nada sinto.
Continuo, ainda assim, a idealizar amores, paixões, excitação e por fim, gozo. Tudo escorre, mas eu nada sinto.
As lágrimas, enfim, secam sozinhas, eu não tinha motivos quando estas insistiam em cair. Agora estou entorpecida e anestesiada e só escorro dormência.
E pelo ralo do banheiro me vi escorrendo também: líquida, anestesiada e entorpecida, numa mistura de lágrimas e água quente do chuveiro, despida, escorri inteiramente, sem forma.
Acordo. Não consigo esconder um sorriso contido de quem percebe a peça que lhe foi pregada: minha mente brincou comigo mais uma vez!
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Dance com a sua sombra
Há a diversidade e esta incute também a diferenciação de valores, ideais certos e errados, não tão distintos assim e o extremo de cada um deles.
A confiança vem apenas à luz do dia e de barreiras que te separam do seu verdadeiro ser, alguém que talvez nem você conheça, pois à noite, tudo o que te resta são os pensamentos e os sentires incontáveis vezes disfarçados durante o dia.
A distância não impede os pensamentos, mas vem armada contra a parte dos sentires que não se refere a isso, pois também faz-se necessário o toque, no qual há muita coisa envolvida que talvez, ironicamente, faz-nos chegar a um outro sentir que se difere daquele que só mora nas emoções que nós mesmos criamos no universo da mente.
Cada mente é um universo único e vezes, isolado. O consciente e subconsciente é apenas seu. O cérebro exercitando o racional e o emocional, a dor, a sensação de solidão, a vontade de esperança para você e para estas pessoas que assim como você só se conhecem ou chegam perto disso no escuro e no toque.
Porque eu só sou capaz de me conhecer com o estímulo de emoções, as quais eu devo apenas à você.
E agora o espelho não significa absolutamente nada quando só é capaz de te mostrar o reflexo, este além de não ter nem toque, nem sentires, ainda vai te projetar o que você tanto sonhou, fazê-lo passar ali, na sua cara, do lado inverso e assim como o céu, você jamais poderá tocá-lo. Ver e observar é tudo o que lhe resta enquanto, certamente, criará sentires sobre isso.
Você vai chorar de solidão aí e eu vou chorar de solidão aqui e no final, mesmo com a nossa presença nos sentiremos sós: os universos de cada pensamento jamais se cruzam inteiramente. Esse grande buraco branco iluminado pelo sol que te faz enxergar, também te cega.
Cegue-se e olhe para o lado, há mais órbitas girando e a existência é o peso que todas elas vão carregar, para sempre.
A confiança vem apenas à luz do dia e de barreiras que te separam do seu verdadeiro ser, alguém que talvez nem você conheça, pois à noite, tudo o que te resta são os pensamentos e os sentires incontáveis vezes disfarçados durante o dia.
A distância não impede os pensamentos, mas vem armada contra a parte dos sentires que não se refere a isso, pois também faz-se necessário o toque, no qual há muita coisa envolvida que talvez, ironicamente, faz-nos chegar a um outro sentir que se difere daquele que só mora nas emoções que nós mesmos criamos no universo da mente.
Cada mente é um universo único e vezes, isolado. O consciente e subconsciente é apenas seu. O cérebro exercitando o racional e o emocional, a dor, a sensação de solidão, a vontade de esperança para você e para estas pessoas que assim como você só se conhecem ou chegam perto disso no escuro e no toque.
Porque eu só sou capaz de me conhecer com o estímulo de emoções, as quais eu devo apenas à você.
E agora o espelho não significa absolutamente nada quando só é capaz de te mostrar o reflexo, este além de não ter nem toque, nem sentires, ainda vai te projetar o que você tanto sonhou, fazê-lo passar ali, na sua cara, do lado inverso e assim como o céu, você jamais poderá tocá-lo. Ver e observar é tudo o que lhe resta enquanto, certamente, criará sentires sobre isso.
Você vai chorar de solidão aí e eu vou chorar de solidão aqui e no final, mesmo com a nossa presença nos sentiremos sós: os universos de cada pensamento jamais se cruzam inteiramente. Esse grande buraco branco iluminado pelo sol que te faz enxergar, também te cega.
Cegue-se e olhe para o lado, há mais órbitas girando e a existência é o peso que todas elas vão carregar, para sempre.
Baby, eu não consigo mais negar os sentimentos e minhas palavras forçadas vêm negando o que meus olhos não conseguem esconder: eu te amo.
Esse lance de amor-livre simplesmente não faz sentido se você está comigo.
Eu ouço a nossa música, ela voltou a tocar insistentemente, como um disco riscado, eu ainda vejo nosso amor espelhado em cada lágrima que chorei da última vez que te neguei.
A razão não me importa quando você me ama. A razão só quer que nos tornemos máquinas e quando o vento me toca, ah! eu não preciso entendê-lo, ele é o mesmo que te toca e isso me basta.
Idealizar um amor só o faz ainda mais distante. Você não é a perfeição, logo eu posso te alcançar. Sou humana como você e o fato de também não prestar só nos faz ainda mais nossos.
Você pode continuar fingindo, afinal, todos estão fingindo e negando o que no escuro fica inevitável: a nossa sempre vontade de se entregar e de morrer de amor. Eu morro. E revivo. Porque quando estou contigo sou toda essa vontade de viver sem saber bem o que é isso.Com você eu sou o amor. Por ele tenho morrido todos os dias e isso é o que me faz viver. Que morramos juntos e dessa vez, as luzes estarão acesas.
Esse lance de amor-livre simplesmente não faz sentido se você está comigo.
Eu ouço a nossa música, ela voltou a tocar insistentemente, como um disco riscado, eu ainda vejo nosso amor espelhado em cada lágrima que chorei da última vez que te neguei.
A razão não me importa quando você me ama. A razão só quer que nos tornemos máquinas e quando o vento me toca, ah! eu não preciso entendê-lo, ele é o mesmo que te toca e isso me basta.
Idealizar um amor só o faz ainda mais distante. Você não é a perfeição, logo eu posso te alcançar. Sou humana como você e o fato de também não prestar só nos faz ainda mais nossos.
Você pode continuar fingindo, afinal, todos estão fingindo e negando o que no escuro fica inevitável: a nossa sempre vontade de se entregar e de morrer de amor. Eu morro. E revivo. Porque quando estou contigo sou toda essa vontade de viver sem saber bem o que é isso.Com você eu sou o amor. Por ele tenho morrido todos os dias e isso é o que me faz viver. Que morramos juntos e dessa vez, as luzes estarão acesas.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Os sorrisos das fotografias nos porta-retratos na sala têm me cansado, enferrujados e petrificados demais para trazerem consigo qualquer brilho no olhar senão o do flash da câmera. Porque não é tão fácil saber se as curvas do sorriso é mero mecanismo enquanto a moldura e cenário da foto são, por vezes, tão bonitos.
A flor vermelha, de plástico, mergulhada na água, como enfeite apenas, está há cerca de seis anos em cima da mesinha da sala, flutuando e debochando sua imortalidade, lança-me um sorriso sarcástico, ela não irá morrer.
Cada móvel e cada metro das paredes brancas mal pintadas dessa casa parecem saber o quanto meus pensamentos têm se combatido em minha mente, numa até então contradição com meus atos.
A televisão, desligada, eu já venci.O relógio na parede do meu quarto e seu TIC-TAC diário martela em minha cabeça incansavelmente. TIC-TAC.
A brevidade dos olhares fazem com que uma piscada de olho seja tempo demais a ser perdido.
Nada é certo e eu insisto em duvidar das grandes verdades do mundo, visto que estas só me trazem novas duvidas.
Quero andar na beira de um precipício, olhar para baixo e no meio do meu delírio gritar para a vida indagando o que ela quer de mim, meu grito ecoará me devolvendo a pergunta, eu sei. Eu realmente não posso esperar uma resposta satisfatória quando nenhuma pode ser capaz de me fazer parar de correr, errar, ter fome e me satisfazer.A vida me traga lentamente se eu não a tragar primeiro, então eu solto sua fumaça aos quatro cantos: me sinto viva, posso sentir, não sou o porta-retrato da velha fotografia ou o enfeite na mesa da sala. Vivo, e porque vivo meu sorriso é verdadeiro.TIC-TAC.Não tenho tempo a perder. Eu vivo.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Passaram-se cinco estações desde o outono em que te vi indo embora e desde então passo as estações tentando, frustradamente, encontrar alguém que me faça despertar a pessoa que eu era quando estava ao seu lado.
Passei o inverno fugindo da chuva, enquanto sei que escolheríamos sempre o caminho mais longo ainda que estivesse chovendo.Minha blusa colaria em minha pele, desenhando os meus traços, minhas mãos frias tremeriam e meus dentes se bateriam uns nos outros. Você riria enquanto me abraçava, me apertando com força, e por fim, calaria meu frio num beijo longo.
Sinto que a parte que eu mais gostava de mim adormeceu naquela tarde em que te vi com os olhos vermelhos,o adeus no coração, disparado, a me abraçar pela última vez. Ainda sou capaz de sentir o calor do nosso último beijo, a última canção dedilhada no violão e nossa música tocando no rádio, o dia todo. Se eu soubesse, eu te morderia com força, mais uma vez, e depois, quase arrependida, vendo minhas marcas na sua pele, iria beijá-las tentando amenizar sua dor.
Vou me mudar dessa cidade cujo asfalto mantem impregnado a sujeira de cada palavra que eu não te disse e de todas as nossas promessas vãs, que é pra ver se me esqueço da gente, naquela grama, vendo e rindo dos desenhos nas nuvens.
É difícil não me lembrar quando quase posso ver a marca das suas mordidas ainda em minha pele, sentir o cheiro do seu cigarro em minhas roupas e seu gosto em mim. Se faço o mesmo caminho que fazíamos todos os dias e se todos os casais que vejo na rua me lembram a gente.
Passaram-se cinco estações e desde então, gosto menos de mim.
Passei o inverno fugindo da chuva, enquanto sei que escolheríamos sempre o caminho mais longo ainda que estivesse chovendo.Minha blusa colaria em minha pele, desenhando os meus traços, minhas mãos frias tremeriam e meus dentes se bateriam uns nos outros. Você riria enquanto me abraçava, me apertando com força, e por fim, calaria meu frio num beijo longo.
Sinto que a parte que eu mais gostava de mim adormeceu naquela tarde em que te vi com os olhos vermelhos,o adeus no coração, disparado, a me abraçar pela última vez. Ainda sou capaz de sentir o calor do nosso último beijo, a última canção dedilhada no violão e nossa música tocando no rádio, o dia todo. Se eu soubesse, eu te morderia com força, mais uma vez, e depois, quase arrependida, vendo minhas marcas na sua pele, iria beijá-las tentando amenizar sua dor.
Vou me mudar dessa cidade cujo asfalto mantem impregnado a sujeira de cada palavra que eu não te disse e de todas as nossas promessas vãs, que é pra ver se me esqueço da gente, naquela grama, vendo e rindo dos desenhos nas nuvens.
É difícil não me lembrar quando quase posso ver a marca das suas mordidas ainda em minha pele, sentir o cheiro do seu cigarro em minhas roupas e seu gosto em mim. Se faço o mesmo caminho que fazíamos todos os dias e se todos os casais que vejo na rua me lembram a gente.
Passaram-se cinco estações e desde então, gosto menos de mim.
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