por onde andarás nessa noite de lua pálida e estrelas pouco visíveis?
por onde passeará a passos lentos o teu pensamento?
será que ele vaga por aquela noite monótona de domingo,
quando sentamos embriagadas pelo tédio somente para contemplar-nos?
estarás a essa hora
a passear pelo meu corpo
com o teu pensamento?
Dou um trago.
Trago demoradamente o cheiro do teu cabelo,
preto,
caído distraidamente nos teus ombros,
enquanto admiro a leveza com que eles passeiam ao vento
compro-te uma bebida,
pode ser a cerveja gelada do rapaz da esquina mesmo
contemplo a forma com que bebes a goles lentos
a minha cerveja já acabou
o nosso amor segue
silencioso
prefere o toque às palavras
prefiro você
matéria-viva
sacrifício doce
doença de minha alma
jogo fora a bituca do cigarro
aqui tudo continua intacto
decido dormir
não quero mais esses pensamentos
quero construir novas lembranças
meu amor
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
domingo, 1 de janeiro de 2012
Eu passei longos trinta minutos olhando para sua face enquanto ela, com a boca entreaberta e os olhos pequenos, mas cheios de amor, contemplavam a habilidade do menino ao folhear as páginas de um álbum antigo de fotografia, enquanto a criança tentava adivinhar quem seriam aquelas figuras tão distantes e irreais, das fotos pregadas no álbum.
Fechei, quase mecanicamente o Nabokov que lia, e tentei decifrar seu olhar maternal. Senti o reflexo do amor que seus olhos lançavam insaciavelmente à criança e tentei imaginá-los refletindo-o a mim.
Porque era eu a criança das fotografias estampadas no velho álbum, que hoje crescida, tentava incansavelmente relembrar qualquer mínimo momento da minha vida, no qual ela tivesse lançado a mim aquele mesmo olhar que agora lançava à criança.
Sim, eu era a criança da fotografia, mas era além de tudo, real e vasculhava agora detalhadamente meu passado na busca por qualquer sorriso, palavra de amor, ou abraço e outros carinhos que ela pudesse ter me lançado no passado, talvez quando eu tivesse a idade da criança (quem sabe?) como a via refletindo nos seus olhos, para a criança.
Não achei nenhuma memória a que creditasse esses carinhos, achei antes, memórias que por longos dezoito anos tentei afastar. Eu só havia visto o rancor nas chibatadas que levava, quase semanalmente e agora, eu descobrira em seus olhos o amor, ainda que não lançado para mim. Agora eu sabia. Eu via. Eu sorria. Eu chorava. Ela possuía amor. Ela estava, naquele instante, cheia de amor. E eu a olhava...
Fechei, quase mecanicamente o Nabokov que lia, e tentei decifrar seu olhar maternal. Senti o reflexo do amor que seus olhos lançavam insaciavelmente à criança e tentei imaginá-los refletindo-o a mim.
Porque era eu a criança das fotografias estampadas no velho álbum, que hoje crescida, tentava incansavelmente relembrar qualquer mínimo momento da minha vida, no qual ela tivesse lançado a mim aquele mesmo olhar que agora lançava à criança.
Sim, eu era a criança da fotografia, mas era além de tudo, real e vasculhava agora detalhadamente meu passado na busca por qualquer sorriso, palavra de amor, ou abraço e outros carinhos que ela pudesse ter me lançado no passado, talvez quando eu tivesse a idade da criança (quem sabe?) como a via refletindo nos seus olhos, para a criança.
Não achei nenhuma memória a que creditasse esses carinhos, achei antes, memórias que por longos dezoito anos tentei afastar. Eu só havia visto o rancor nas chibatadas que levava, quase semanalmente e agora, eu descobrira em seus olhos o amor, ainda que não lançado para mim. Agora eu sabia. Eu via. Eu sorria. Eu chorava. Ela possuía amor. Ela estava, naquele instante, cheia de amor. E eu a olhava...
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
pequenos prazeres:
Gosto de observar a marca do batom vermelho, que distraidamente, fica no cigarro dela, e de pousar minhas mãos em seu quadril para acompanhar o ritmo/movimento. Música no escuro e quadris.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Delírio
Mantendo-se confusa
querendo aproveitar os milésimos de segundos
esquecendo-se que também precisa de horas a serem dormidas
e acima de tudo, de horas a serem perdidas.
Ela insiste em dar as costas para o sentido
só lhe importa agora o desconhecido.
O novo nunca lhe fascinou tanto como agora
Os loucos nunca lhe renderam tanto aprendizado
O simples nunca pareceu tão complexo
Os desejos tão inegáveis.
Provando de todos os sabores, dores e nostalgia possíveis
Ignorando os efeitos colaterais e principalmente
Ignorando o fato dela
ser eu.
querendo aproveitar os milésimos de segundos
esquecendo-se que também precisa de horas a serem dormidas
e acima de tudo, de horas a serem perdidas.
Ela insiste em dar as costas para o sentido
só lhe importa agora o desconhecido.
O novo nunca lhe fascinou tanto como agora
Os loucos nunca lhe renderam tanto aprendizado
O simples nunca pareceu tão complexo
Os desejos tão inegáveis.
Provando de todos os sabores, dores e nostalgia possíveis
Ignorando os efeitos colaterais e principalmente
Ignorando o fato dela
ser eu.
domingo, 27 de março de 2011
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
pão e circo
Sem morfina para aguentar a dor...
Desvio pensamentos,
mas as batidas do meu coração seguem rumo próprio.
Eu sei que jurei para mim mesma não deixar isso me abalar, mas o noticiário é diário
e minha lucidez, até então permanente.
Os copos de vinho, com altas taxas de nicotina contida nos cigarros-morfina
não são suficientemente eficazes para me anestesiar do mundo em que vivemos.
Sou lúcida.
Tampouco mudar o canal e ausentar-me das tragédias.
Sou lúcida.
Uma xícara de chá, por favor!
Vou mudar o canal da TV e o site de notícias que me enojam diariamente.
Espere...uma pausa!
E depois da morte, vem a notícia do carnaval
e os rostos, outrora, supostamente tristes ao transmitir em rede nacional a notícia da morte, têm agora um sorriso petrificado estampado.
Os pais da criança do noticiário prosseguem chorando...
Desvio pensamentos,
mas as batidas do meu coração seguem rumo próprio.
Eu sei que jurei para mim mesma não deixar isso me abalar, mas o noticiário é diário
e minha lucidez, até então permanente.
Os copos de vinho, com altas taxas de nicotina contida nos cigarros-morfina
não são suficientemente eficazes para me anestesiar do mundo em que vivemos.
Sou lúcida.
Tampouco mudar o canal e ausentar-me das tragédias.
Sou lúcida.
Uma xícara de chá, por favor!
Vou mudar o canal da TV e o site de notícias que me enojam diariamente.
Espere...uma pausa!
E depois da morte, vem a notícia do carnaval
e os rostos, outrora, supostamente tristes ao transmitir em rede nacional a notícia da morte, têm agora um sorriso petrificado estampado.
Os pais da criança do noticiário prosseguem chorando...
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
só agora.
Olho-te,
incansavelmente,
enquanto expressa teus desejos e sentimentos mais obscuros
eu decrifro-te não mais enigmático,
foi entregue pelo olhar.
Não fuja.
Não desvie teus olhos dos meus
eu continuo aqui, observando cada movimento seu,
cada centímetro das tuas pupilas inquietas.
Vá até a janela empoeirada que a tanto tempo fechada guarda-te do mundo.
Abra-a.
Olhe.
Olhe todas as pessoas solitárias dentro de suas casas por entre ela.
Veja mais a distante...Olhe!
Olhe todas as crianças que distraidamente jogam futebol na rua, alheias a qualquer problema político-social que possa existir em um outro universo paralelo àquele.
Seus músculos há tanto tempo parados parecem pedir-te descanso apenas ao vê-las,
mas..há tanto tempo passou a descansar, não?
Seus olhos tão acostumados com a escuridão da casa agora à luz do sol parecem cegar-te,
mas o seu calor faz-se ao mesmo tempo tão aconchegante que decidi por fim, ficar ali.
És o primeiro prisioneiro do dia a ser libertado.
incansavelmente,
enquanto expressa teus desejos e sentimentos mais obscuros
eu decrifro-te não mais enigmático,
foi entregue pelo olhar.
Não fuja.
Não desvie teus olhos dos meus
eu continuo aqui, observando cada movimento seu,
cada centímetro das tuas pupilas inquietas.
Vá até a janela empoeirada que a tanto tempo fechada guarda-te do mundo.
Abra-a.
Olhe.
Olhe todas as pessoas solitárias dentro de suas casas por entre ela.
Veja mais a distante...Olhe!
Olhe todas as crianças que distraidamente jogam futebol na rua, alheias a qualquer problema político-social que possa existir em um outro universo paralelo àquele.
Seus músculos há tanto tempo parados parecem pedir-te descanso apenas ao vê-las,
mas..há tanto tempo passou a descansar, não?
Seus olhos tão acostumados com a escuridão da casa agora à luz do sol parecem cegar-te,
mas o seu calor faz-se ao mesmo tempo tão aconchegante que decidi por fim, ficar ali.
És o primeiro prisioneiro do dia a ser libertado.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
lembrete
Moramos todos no mesmo planeta
e no fundo,
todos têm sentimentos,
todos têm os mesmos medos,
todos têm o mesmo desejo de ser feliz,
todos sentem dor,
todos querem ser amados,
todos querem ter um lugar confortável para morar e alimentos para saborear.
O assassino a quem você tanto xingou ao ver o noticiário,
aquela pessoa a quem você tanto detesta e desejaria jamais tê-la conhecido,
o drogado a quem você acelerou os passos fingindo não ver a cena,
a criança aidética que você viu nos documentários sobre a África e agradeceu por não morar lá,
o mendigo que te pediu um pão-francês e você fingiu não ouvir,
o insano internado no hospício a quem você tanto se fez superior,
Eles são humanos
Eles são como você.
e no fundo,
todos têm sentimentos,
todos têm os mesmos medos,
todos têm o mesmo desejo de ser feliz,
todos sentem dor,
todos querem ser amados,
todos querem ter um lugar confortável para morar e alimentos para saborear.
O assassino a quem você tanto xingou ao ver o noticiário,
aquela pessoa a quem você tanto detesta e desejaria jamais tê-la conhecido,
o drogado a quem você acelerou os passos fingindo não ver a cena,
a criança aidética que você viu nos documentários sobre a África e agradeceu por não morar lá,
o mendigo que te pediu um pão-francês e você fingiu não ouvir,
o insano internado no hospício a quem você tanto se fez superior,
Eles são humanos
Eles são como você.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
hoje
vou
embebedar-me de risos altos e descontrolados
acordar a vizinhança com mais um grito do som estrondoso da felicidade
rir do meu passado e da minha infância
e não vou permitir que a notícia de jornal me abale, não mais
vou
pedir para que joguem-me piscina adentro sem medo de afogar-me
dançar, sem música de fundo
rasgar-te a tristeza
enfeitar tua alegria
vou
aprender com os loucos a lógica da vida
e despir-me de qualquer substância tóxica à positividade
porque hoje,
hoje eu parei de procurar detalhadamente pelos cantos
e por coincidência, encontrei-me com ela:
a tal felicidade sussurrando em meu ouvido
o contrário de tudo aquilo que julgava por mim já cumprido
o prazer do que é proibido
apenas em sua mente.
embebedar-me de risos altos e descontrolados
acordar a vizinhança com mais um grito do som estrondoso da felicidade
rir do meu passado e da minha infância
e não vou permitir que a notícia de jornal me abale, não mais
vou
pedir para que joguem-me piscina adentro sem medo de afogar-me
dançar, sem música de fundo
rasgar-te a tristeza
enfeitar tua alegria
vou
aprender com os loucos a lógica da vida
e despir-me de qualquer substância tóxica à positividade
porque hoje,
hoje eu parei de procurar detalhadamente pelos cantos
e por coincidência, encontrei-me com ela:
a tal felicidade sussurrando em meu ouvido
o contrário de tudo aquilo que julgava por mim já cumprido
o prazer do que é proibido
apenas em sua mente.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
meias verdades
Arraste pelo asfalto ainda molhado pela chuva, a verdade.
Todas as verdades propriamente ditas,
mentiras recontadas formando uma nova verdade,
as mais belas mentiras,
agora reais demais para se dissolverem
dentro de nós.
Todas as verdades propriamente ditas,
mentiras recontadas formando uma nova verdade,
as mais belas mentiras,
agora reais demais para se dissolverem
dentro de nós.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
anymore
Agora, finalmente cicatrizada, me encontro aqui
como me encontro a cada hora do meu dia
parada,
contemplando as paredes brancas e monótonas do meu quarto
e de cada cômodo da casa, dos jardins e de cada metro do sujo e velho asfalto que as ruas possam conter, manchados por cada beijo nosso
revivendo você
ou o que costumava ser você.
Sim, eu sei o quanto abalamos reciprocamente nossos mundos
refletindo em nossos olhos o sorriso do outro, até mesmo mais do que apenas o seu ou o meu. Éramos nós.
Mas seu amor é bom demais pra mim,
normal demais pra mim,
não temos mais pelo quê ou por quem lutar,
sempre tenho agora o ar límpido para respirar,
opondo-se à minha alma agitada e inconcisa.
Saia agora, meu amor,
tranque as portas e devolva-me as chaves,
volte para a ordem normal das coisas,
volte para o seu mundo e para suas paixões mundanas
eu preciso voar.
como me encontro a cada hora do meu dia
parada,
contemplando as paredes brancas e monótonas do meu quarto
e de cada cômodo da casa, dos jardins e de cada metro do sujo e velho asfalto que as ruas possam conter, manchados por cada beijo nosso
revivendo você
ou o que costumava ser você.
Sim, eu sei o quanto abalamos reciprocamente nossos mundos
refletindo em nossos olhos o sorriso do outro, até mesmo mais do que apenas o seu ou o meu. Éramos nós.
Mas seu amor é bom demais pra mim,
normal demais pra mim,
não temos mais pelo quê ou por quem lutar,
sempre tenho agora o ar límpido para respirar,
opondo-se à minha alma agitada e inconcisa.
Saia agora, meu amor,
tranque as portas e devolva-me as chaves,
volte para a ordem normal das coisas,
volte para o seu mundo e para suas paixões mundanas
eu preciso voar.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
laissez faire, laissez passer
em meio ao caos
onde encontram-se as vozes?
as vozes dos gritos
da passeata pelas ruas
dos protestos?
procuro por todos os lados
onde encontram-se vocês novos caras-pintadas?
todos parecem tão satisfeitos com o sistema
as camadas mais baixas estarão
ou será acomodação?
até quando
deixai fazer, deixar passar que o mundo gira por ele mesmo?
onde encontram-se as vozes?
as vozes dos gritos
da passeata pelas ruas
dos protestos?
procuro por todos os lados
onde encontram-se vocês novos caras-pintadas?
todos parecem tão satisfeitos com o sistema
as camadas mais baixas estarão
ou será acomodação?
até quando
deixai fazer, deixar passar que o mundo gira por ele mesmo?
"Liberdades não são dadas, elas são feitas."
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
talvez não
eu sou egoísta
eu sou depressiva
eu sou pequena
eu sou alegre
eu finjo estar alegre
eu minto.
eu não sinto
insisto, sim
milhões de índios morreram ontem
eu bebo.
dois foram assassinados ontem, hoje e amanhã
eu fumo.
em nome de deus milhões morreram
eu grito.
milhões de formas refletidas de mim morrem todo dia
eu bebo, fumo, fujo
grito
meu grito é silencioso
não
o mundo não o ouve
você não o ouve
eu não o ouço
eu me escondo
eu te amo
eu te odeio
eu sou um amontoado de contradições
ambulante
eu bebo, fumo, fujo, grito
o mundo grita
sim
eu posso ouvi-lo
é reflexo de todas as bruxas na fogueira
e de todas as meias verdades que ainda virão
eu bebo, fumo, fujo, grito
o mundo grita
por fim chora
pessoas morrem sem saber o porquê
talvez não exista um porquê
eu bebo, fumo, fujo, grito
talvez não exista um porquê
eu escrevo deus com letra minúscula.
eu sou depressiva
eu sou pequena
eu sou alegre
eu finjo estar alegre
eu minto.
eu não sinto
insisto, sim
milhões de índios morreram ontem
eu bebo.
dois foram assassinados ontem, hoje e amanhã
eu fumo.
em nome de deus milhões morreram
eu grito.
milhões de formas refletidas de mim morrem todo dia
eu bebo, fumo, fujo
grito
meu grito é silencioso
não
o mundo não o ouve
você não o ouve
eu não o ouço
eu me escondo
eu te amo
eu te odeio
eu sou um amontoado de contradições
ambulante
eu bebo, fumo, fujo, grito
o mundo grita
sim
eu posso ouvi-lo
é reflexo de todas as bruxas na fogueira
e de todas as meias verdades que ainda virão
eu bebo, fumo, fujo, grito
o mundo grita
por fim chora
pessoas morrem sem saber o porquê
talvez não exista um porquê
eu bebo, fumo, fujo, grito
talvez não exista um porquê
eu escrevo deus com letra minúscula.
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