terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Não fiqueis triste, bem-querer
há flores desabrochando docemente nesse instante
ali no jardim de casa mesmo.
Pegue na minha mão levemente e venha comigo vê-las
te prometo a de lótus, tua favorita
guardo o perfume dela no meu pensamento
e tento exalar quando estiveres comigo

o perfume dela, tem o cheiro suave das tuas roupas
que reprovando qualquer amaciante desses das lojas
escolhe o cheiro natural das flores a impregnar-se
de alguma forma
em todas as peças que vestem-te

a notícia do jornal é triste
eu sei
jurei por mil vezes não deixá-la desanimar-me
há flores murchando a toda hora
mas agora
concentremo-nos na que desabrocha, sozinha
no jardim de casa
enquanto todos da casa
ocupados demais com afazeres diários
não a percebem

vem comigo
vamos contemplar a beleza
notória
ou invisível

da vida
da natureza
do ser e de ser
finalmente duas almas.
por onde andarás nessa noite de lua pálida e estrelas pouco visíveis?
por onde passeará a passos lentos o teu pensamento?
será que ele vaga por aquela noite monótona de domingo,
quando sentamos embriagadas pelo tédio somente para contemplar-nos?
estarás a essa hora
a passear pelo meu corpo
com o teu pensamento?

Dou um trago.

Trago demoradamente o cheiro do teu cabelo,
preto,
caído distraidamente nos teus ombros,
enquanto admiro a leveza com que eles passeiam ao vento

compro-te uma bebida,
pode ser a cerveja gelada do rapaz da esquina mesmo
contemplo a forma com que bebes a goles lentos
a minha cerveja já acabou

o nosso amor segue
silencioso
prefere o toque às palavras


prefiro você
matéria-viva
sacrifício doce
doença de minha alma

jogo fora a bituca do cigarro

aqui tudo continua intacto
decido dormir
não quero mais esses pensamentos


quero construir novas lembranças
meu amor

domingo, 1 de janeiro de 2012

Eu passei longos trinta minutos olhando para sua face enquanto ela, com a boca entreaberta e os olhos pequenos, mas cheios de amor, contemplavam a habilidade do menino ao folhear as páginas de um álbum antigo de fotografia, enquanto a criança tentava adivinhar quem seriam aquelas figuras tão distantes e irreais, das fotos pregadas no álbum.
Fechei, quase mecanicamente o Nabokov que lia, e tentei decifrar seu olhar maternal. Senti o reflexo do amor que seus olhos lançavam insaciavelmente à criança e tentei imaginá-los refletindo-o a mim.
Porque era eu a criança das fotografias estampadas no velho álbum, que hoje crescida, tentava incansavelmente relembrar qualquer mínimo momento da minha vida, no qual ela tivesse lançado a mim aquele mesmo olhar que agora lançava à criança.
Sim, eu era a criança da fotografia, mas era além de tudo, real e vasculhava agora detalhadamente meu passado na busca por qualquer sorriso, palavra de amor, ou abraço e outros carinhos que ela pudesse ter me lançado no passado, talvez quando eu tivesse a idade da criança (quem sabe?) como a via refletindo nos seus olhos, para a criança.
Não achei nenhuma memória a que creditasse esses carinhos, achei antes, memórias que por longos dezoito anos tentei afastar. Eu só havia visto o rancor nas chibatadas que levava, quase semanalmente e agora, eu descobrira em seus olhos o amor, ainda que não lançado para mim. Agora eu sabia. Eu via. Eu sorria. Eu chorava. Ela possuía amor. Ela estava, naquele instante, cheia de amor. E eu a olhava...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

como pode-se ser feliz nessa vida fugindo desta própria? °°°

pequenos prazeres:

Gosto de observar a marca do batom vermelho, que distraidamente, fica no cigarro dela, e de pousar minhas mãos em seu quadril para acompanhar o ritmo/movimento. Música no escuro e quadris.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Delírio

Mantendo-se confusa
querendo aproveitar os milésimos de segundos
esquecendo-se que também precisa de horas a serem dormidas
e acima de tudo, de horas a serem perdidas.
Ela insiste em dar as costas para o sentido
só lhe importa agora o desconhecido.
O novo nunca lhe fascinou tanto como agora
Os loucos nunca lhe renderam tanto aprendizado
O simples nunca pareceu tão complexo
Os desejos tão inegáveis.
Provando de todos os sabores, dores e nostalgia possíveis
Ignorando os efeitos colaterais e principalmente
Ignorando o fato dela
ser eu.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

pão e circo

Sem morfina para aguentar a dor...

Desvio pensamentos,
mas as batidas do meu coração seguem rumo próprio.
Eu sei que jurei para mim mesma não deixar isso me abalar, mas o noticiário é diário
e minha lucidez, até então permanente.
Os copos de vinho, com altas taxas de nicotina contida nos cigarros-morfina
não são suficientemente eficazes para me anestesiar do mundo em que vivemos.
Sou lúcida.
Tampouco mudar o canal e ausentar-me das tragédias.
Sou lúcida.
Uma xícara de chá, por favor!
Vou mudar o canal da TV e o site de notícias que me enojam diariamente.
Espere...uma pausa!
E depois da morte, vem a notícia do carnaval
e os rostos, outrora, supostamente tristes ao transmitir em rede nacional a notícia da morte, têm agora um sorriso petrificado estampado.
Os pais da criança do noticiário prosseguem chorando...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

só agora.

Olho-te,
incansavelmente,
enquanto expressa teus desejos e sentimentos mais obscuros
eu decrifro-te não mais enigmático,
foi entregue pelo olhar.
Não fuja.
Não desvie teus olhos dos meus
eu continuo aqui, observando cada movimento seu,
cada centímetro das tuas pupilas inquietas.
Vá até a janela empoeirada que a tanto tempo fechada guarda-te do mundo.
Abra-a.
Olhe.
Olhe todas as pessoas solitárias dentro de suas casas por entre ela.
Veja mais a distante...Olhe!
Olhe todas as crianças que distraidamente jogam futebol na rua, alheias a qualquer problema político-social que possa existir em um outro universo paralelo àquele.
Seus músculos há tanto tempo parados parecem pedir-te descanso apenas ao vê-las,
mas..há tanto tempo passou a descansar, não?
Seus olhos tão acostumados com a escuridão da casa agora à luz do sol parecem cegar-te,
mas o seu calor faz-se ao mesmo tempo tão aconchegante que decidi por fim, ficar ali.

És o primeiro prisioneiro do dia a ser libertado.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

lembrete

Moramos todos no mesmo planeta
e no fundo,
todos têm sentimentos,
todos têm os mesmos medos,
todos têm o mesmo desejo de ser feliz,
todos sentem dor,
todos querem ser amados,
todos querem ter um lugar confortável para morar e alimentos para saborear.

O assassino a quem você tanto xingou ao ver o noticiário,
aquela pessoa a quem você tanto detesta e desejaria jamais tê-la conhecido,
o drogado a quem você acelerou os passos fingindo não ver a cena,
a criança aidética que você viu nos documentários sobre a África e agradeceu por não morar lá,
o mendigo que te pediu um pão-francês e você fingiu não ouvir,
o insano internado no hospício a quem você tanto se fez superior,

Eles são humanos

Eles são como você.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

hoje

vou
embebedar-me de risos altos e descontrolados
acordar a vizinhança com mais um grito do som estrondoso da felicidade
rir do meu passado e da minha infância
e não vou permitir que a notícia de jornal me abale, não mais

vou
pedir para que joguem-me piscina adentro sem medo de afogar-me
dançar, sem música de fundo
rasgar-te a tristeza
enfeitar tua alegria

vou
aprender com os loucos a lógica da vida
e despir-me de qualquer substância tóxica à positividade

porque hoje,
hoje eu parei de procurar detalhadamente pelos cantos
e por coincidência, encontrei-me com ela:
a tal felicidade sussurrando em meu ouvido
o contrário de tudo aquilo que julgava por mim já cumprido
o prazer do que é proibido

apenas em sua mente.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

meias verdades

Arraste pelo asfalto ainda molhado pela chuva, a verdade.
Todas as verdades propriamente ditas,
mentiras recontadas formando uma nova verdade,
as mais belas mentiras,
agora reais demais para se dissolverem
dentro de nós.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

anymore

Agora, finalmente cicatrizada, me encontro aqui
como me encontro a cada hora do meu dia
parada,
contemplando as paredes brancas e monótonas do meu quarto
e de cada cômodo da casa, dos jardins e de cada metro do sujo e velho asfalto que as ruas possam conter, manchados por cada beijo nosso
revivendo você
ou o que costumava ser você.
Sim, eu sei o quanto abalamos reciprocamente nossos mundos
refletindo em nossos olhos o sorriso do outro, até mesmo mais do que apenas o seu ou o meu. Éramos nós.
Mas seu amor é bom demais pra mim,
normal demais pra mim,
não temos mais pelo quê ou por quem lutar,
sempre tenho agora o ar límpido para respirar,
opondo-se à minha alma agitada e inconcisa.
Saia agora, meu amor,
tranque as portas e devolva-me as chaves,
volte para a ordem normal das coisas,
volte para o seu mundo e para suas paixões mundanas
eu preciso voar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

laissez faire, laissez passer

em meio ao caos
onde encontram-se as vozes?
as vozes dos gritos
da passeata pelas ruas
dos protestos?

procuro por todos os lados
onde encontram-se vocês novos caras-pintadas?

todos parecem tão satisfeitos com o sistema
as camadas mais baixas estarão
ou será acomodação?

até quando
deixai fazer, deixar passar que o mundo gira por ele mesmo?



"Liberdades não são dadas, elas são feitas."

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

eu

desculpe-me se sou assim,
tão indagadora,
tão insaciável,
tão incógnita,

tão eu.